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7 de outubro
Dezenas de feridos, oito mortos e assassinos são absolvidos

Welington Silveira
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Com as redes sociais o termo “fakenews” virou conhecido da população. Mas essa forma de viralizar boatos e notícias falsas não é coisa que surgiu com a internet. Há 58 anos, aqui na nossa região, a construção de um mito de “ameaça comunista” foi utilizada para defesa e absolvição dos policiais que dispararam em direção a uma manifestação com milhares de trabalhadores. Esse fato, ocorrido em 07 de outubro de 1963, ficou conhecido como o Massacre de Ipatinga. Para saber mais sobre esse assunto conversamos com a educadora e mestre em História, Marilene Tuler, autora do livro “Massacre de Ipatinga: Mitos e Verdades”.
 
Mito construído
 
“Em minha pesquisa, ao analisar o Inquérito que julgou os policiais envolvidos no  Massacre de Ipatinga ficou evidente como o uso da ‘ameaça comunista’ serviu para que a defesa dos acusados obtivesse a absolvição dos implicados”, explica. De acordo com a historiadora, a presença de comunistas no movimento operário ipatinguense foi sendo construída. Tanto que num primeiro momento, eles não são sequer mencionados. Depois aparecem em dois depoimentos de pessoas representantes das instituições envolvidas (Usiminas e Polícia Militar). Num terceiro momento todos os depoentes militares descrevem um suposto líder, usando um discurso muito semelhante, dando a entender que foram instruídos para responderem ao interrogatório. E na fase final do processo, os depoentes descrevem com detalhes o “líder comunista”.
O mito nesse caso foi usado para justificar aquele ato violento. Segundo dados oficiais foram dezenas de feridos e oito mortos, dentre eles uma criança de três meses, Eliane Martins, baleada no colo da mãe, Antonieta Francisca da Conceição. No entanto, o número de mortos e feridos é contestado por pesquisadores*. 
 
Silenciando quem discorda
 
Apesar da relevância do episódio, de acordo com a historiadora há muitas pessoas que ainda desconhecem o ocorrido em 1963. Ela, que atuou como educadora por mais de 30 anos em diversas escolas em Ipatinga, afirma que este fato foi escondido por décadas da população. “Foi construído um silêncio em torno do episódio. Silêncio este que interessava à empresa envolvida (a Usiminas) e ao Governo de Minas Gerais (o governador era Magalhães Pinto e ele queria candidatar-se à Presidência da República, por isto tinha interesses em apresentar Minas Gerais como um estado sem problemas, sem conflitos). Outro motivo do silenciamento foi a implantação do Regime Militar em 1964, que censurou a imprensa e calou as vozes discordantes”.
 
Na época, cinco mil operários fizeram uma paralisação em frente a uma das portarias da Usiminas (onde hoje está instalado o shopping), para protestar contra as péssimas  condições  de  vida  (moradia,   lazer, transportes,  salários,  etc ) e o tratamento truculento que recebiam por parte dos vigilantes e da Polícia Militar. Mas, de acordo com a escritora, o que era uma simples greve, com o passar do tempo foi tomando a feição de um movimento político, com a finalidade de criminalizar a manifestação espontânea dos trabalhadores.
Hoje ainda a tentativa de criminalizar os movimentos populares é constante. Marilene aponta como exemplos os episódios de violência policial contra jornalistas e manifestantes. “Também ocorre a caracterização dos manifestantes como ‘vândalos’ pela maioria dos veículos de comunicação. Na realidade, no Brasil continuam tratando mobilizações de rua como sendo caso de polícia e não como caso de POLÍTICA”.
 
Consciência crítica para lutar contra massacres
 
É por isso que o Massacre de Ipatinga não pode ser visto como um assunto do passado. A historiadora explica que as lutas por melhores condições de trabalho e de vida devem ser compreendidas como um processo de longa duração. “Massacres continuam a acontecer, alguns de forma violenta, com um grande aparato policial; outros de forma sutil e não declarada, como a retirada, por parte do atual governo, de conquistas trabalhistas arduamente obtidas através de muitas lutas. A perda de direitos, fruto de uma política neoliberal, é o maior massacre na atualidade em nosso país”.
 
Mas se a sociedade continuar a ser enganada por mitos, massacres como o de 07 de outubro continuarão a se repetir, de muitas formas. Para que isso não aconteça, é preciso investir em educação. Em 15 de outubro celebramos o Dia dos Professores. Para Marilene, “o educador tem um papel fundamental na formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, capazes de lutar e de promover transformações na sociedade”. Ela destaca os ensinamentos do grande mestre Paulo Freire: “não podemos ser ingênuos e ficarmos esperando que as classes dominantes desenvolvam uma educação que proporcione às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Pelo contrário, nos últimos anos a educação pública tem sofrido diversos ataques, como a Emenda Constitucional 95 que congelou os investimentos públicos, e as constantes ameaças de cortes de direitos e violações sofridas pelos trabalhadores da educação. Assim como na época do Massacre de Ipatinga, é montada uma estratégia para que o povo não questione, continue oprimido e em silêncio. É por isso que a pedagogia do Patrono da Educação Brasileira fala do ensino como forma de libertação. “Concluo com as palavras de Paulo Freire, ‘se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda’”.
 
*Mais informações no livro “Não foi por acaso: a história dos trabalhadores que construíram a Usiminas e morreram no Massacre de Ipatinga”, de autoria de Marcelo Freitas; no documentário intitulado “Senta a pua!” de Nilmar Lage e Thiago de Oliveira Moreira; e no livro “O Massacre de Ipatinga, de Carlindo Marques Pereira. 
 

Arquivo
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Fonte : Ascom/SECI







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